A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim
da escala 6x1 ganhou força no país e, à primeira vista, pode parecer uma
evolução natural nas relações de trabalho. No entanto, quando analisada sob a
ótica do setor empresarial, a proposta revela consequências relevantes que
exigem reflexão mais aprofundada.
Estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) destaca
o papel estratégico do transporte e os efeitos da medida. Segundo a PAS/IBGE, o
setor reúne mais de 173 mil empresas, emprega 2,7 milhões de pessoas e
movimenta cerca de R$ 900 bilhões, representando 28,1% dos serviços no país. Em
2025, o Novo Caged registrou a criação de 94,5 mil empregos formais,
impulsionados pelo comércio eletrônico e pela logística. Apesar disso, o
segmento já enfrenta escassez de mão de obra.
É nesse contexto que se inserem as propostas de mudança na
jornada. O estudo da CNT indica que a diminuição de 44 para 40 horas semanais
pode gerar um impacto de R$ 11,88 bilhões, chegando a R$ 28,1 bilhões em um
cenário de 36 horas. Isso representa aumento médio de 8,66% e 20,53% nos custos
de mão de obra, respectivamente.
No setor de serviços, levantamento da Confederação Nacional
do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta efeitos ainda mais
amplos. A combinação de jornada de 40 horas com o fim da escala 6x1 pode elevar
custos em até R$ 235 bilhões por ano, com potencial repasse ao consumidor e
aumento de preços de até 13%.
No segmento de locação de veículos, os efeitos não são
homogêneos, mas são significativos. Empresas que operam com atendimento em
balcão, especialmente em aeroportos e centros urbanos, devem sentir de forma
mais direta a elevação dos custos, com aumento estimado de até 31,6% na folha
de pagamento. Já operações mais enxutas ou digitais podem ter menor pressão,
ainda inseridas em um ambiente de custos elevados.
Diante desse cenário, as respostas empresariais tendem a
seguir múltiplos caminhos, todos com repercussões desfavoráveis: reajuste de
preços, compressão de margens, automação, maior rotatividade e, em casos mais
sensíveis, o encerramento de atividades, especialmente entre pequenas empresas.
No transporte, o reflexo será a elevação de fretes e tarifas, com efeito
cascata sobre toda a cadeia econômica, resultando em preços mais altos de
produtos e serviços e na perda de poder de compra da população.
O ponto central é que a proposta, embora bem-intencionada,
enfrenta limites concretos. O país já convive com dificuldades para suprir
vagas em diversos setores. A diminuição da carga horária, sem ajustes
estruturais ou compensações tributárias, tende a ampliar esse desequilíbrio,
exigindo reorganização complexa de atividades essenciais e elevando os custos
operacionais.
O Sistema de Transporte e demais entidades que representam o
setor produtivo têm reforçado a necessidade de um debate técnico, desprovido de
viés ideológico, responsável e alinhado à realidade das empresas e dos
trabalhadores.
A diminuição da jornada de trabalho é uma aspiração
legítima. Ainda assim, trata-se de uma decisão com impactos diretos sobre
empregos, preços e sustentabilidade das operações. Para setores como o de
locação de veículos, que já operam sob múltiplas pressões, o momento exige
atenção, análise estratégica e acompanhamento próximo dos efeitos dessa agenda.
Fernando Klein Nunes
Presidente do Sindiloc-PR
Desejo a todos uma excelente leitura!

